Elas viajam sozinhas. E querem que toda mulher possa fazer o mesmo!

Hashtag #ITravelAlone reúne depoimentos de mulheres viajantes pelo enfrentamento do medo e dos riscos de ser uma uma mulher que viaja só.

As viajantes estão compartilhando seus depoimentos com a hashtag #ITravelAlone (eu viajo sozinha) – segundo o site, a comunidade feminina do Worldpackers conta com 150.000 mulheres de 93 países.A ideia é incentivar outras que ainda tenham receio de sair pelo mundo sozinhas e promover uma troca de conhecimento sobre como viajar em segurança.

“Na minha trajetória de viajante, me deparei com muitas perguntas que são feitas só para mulheres, como ‘você está mesmo viajando sozinha?’, ou ‘você não tinha ninguém para vir com você?’ e ‘como você tem coragem de viajar sozinha?’. Se você viaja só, tenho certeza de que ouvirá uma delas pelo menos uma vez”

Paula

Depoimento retirado do guia #ITravelAlone

As viajantes questionam os destinos que seriam “perigosos demais” para as mulheres e incentivam o enfrentamento do medo. No site, a comunidade de viajantes solitárias troca experiências e dicas de melhores destinos a serem explorados por mulheres.

O que há no guia:

A seção do site dedicada às mulheres traz um guia de viagem, disponível para download (somente em inglês: https://www.worldpackers.com/itravelalone).

Em muitos sentidos o guia é “universal”. Como já afirmava a escritora Janice Waugh, autora do livro “The Solo Traveler’s Handbook” (O Manual do Viajante Solitário), os cuidados de uma mulher viajando sozinha são semelhantes aos de qualquer pessoa viajando, mesmo que acompanhada.

Há dicas sobre preparativos (bagagem, visto, etc.), transporte e acomodação que podem ser úteis a qualquer um.

No que diz respeito à segurança das viajantes, no entanto, fica explícito que o gênero faz diferença.

O guia traz algumas dicas de segurança que devem ser adotadas especificamente por mulheres – entre elas, buscar registrar em imagem o taxista ou a licença, acompanhar o trajeto da viagem por GPS, certificar-se de comprar uma poltrona individual em ônibus e trens e tomar cuidado ao viajar em ônibus leito.

Recomendações do guia para as mulheres:

  • Ficar em lugares públicos e abertos, com pessoas na rua, principalmente à noite
  • Evitar “parecer” turista. Destacar-se muito da multidão deixa claro que o local é desconhecido e faz o viajante parecer mais vulnerável
  • Entender a cultura local, para se adaptar melhor à regras de vestimentas e comportamento
  • Procurar por outras mulheres viajando sozinhas – fazer amigos durante a viagem ajuda na troca de experiência
  • Fazer parte de comunidades virtuais de mulheres viajantes. O guia indica alguns grupos de mulheres viajantes no Facebook, como o “Travelletes” . No Brasil, há o “Couchsurfing das Mina”, em que mulheres trocam acomodação, dicas e experiências.

O que desencoraja mulheres de viajarem sós

Em fevereiro de 2016, duas jovens turistas argentinas foram estupradas e mortas no Equador. Ainda que viajassem em dupla, a ausência de uma companhia masculina fez com que fossem culpadas por “viajarem sozinhas”. O episódio motivou o surgimento da hashtag #viajosola, pelo direito a viajar só entre mulheres ou completamente desacompanhada.

Os riscos enfrentados por mulheres que viajam sozinhas são reais e, além disso, diferentes das preocupações de casais viajantes ou homens que viajam sós. A violência sexual é uma delas. Apesar disso, para Laura Bates, fundadora do projeto Everyday Sexism, o risco não é uma razão lógica para que mulheres não viajem, já que estão sujeitas a ele em seus cotidianos.

“Sugerir que qualquer mulher não deva viajar sozinha é ilógico quando nenhum país ainda atacou com sucesso e acabou com a igualdade de gênero e a violência sexual”.

Laura Bates,  em um artigo para o “The Guardian”.

Para Juliana de Faria, do coletivo feminista Think Olga, o olhar crítico sobre o fato de uma mulher viajar sozinha faz parte de uma herança da época em que mulheres não podiam, de fato, andar na rua sem a companhia de um homem.

“A mulher não é entendida como um ser que pode ocupar o espaço público. Afinal, demorou mesmo muito tempo para que ela de fato o ocupasse. Então, ainda somos vistas como seres domésticos – do lar, que cozinha e cuida dos filhos, que recebe o marido no fim do dia de trabalho. Esse olhar é equivocado, claro, mas muito real e muito presente”, diz.